top of page

O que é perfumaria botânica (e por que ela não é só juntar óleos essenciais num frasco)?

  • Foto do escritor: Bridda
    Bridda
  • há 10 minutos
  • 7 min de leitura

Quando falo que trabalho com perfumaria botânica, a imagem que costuma aparecer na cabeça das pessoas é: alguém pingando óleos essenciais dentro de um vidrinho até chegar num cheiro gostoso. Eu entendo perfeitamente de onde vem essa ideia. Porém, criar um perfume botânico é bem menos parecido com uma receita e bem mais parecido com uma composição.


A perfumaria botânica é uma forma de criar fragrâncias colocando as matérias-primas aromáticas de origem vegetal como protagonistas. Os óleos essenciais na perfumaria são só uma parte dessa história: também entram absolutos, resinas, bálsamos, extratos obtidos por CO₂, tinturas e outros materiais naturais.


O objetivo, no fim das contas, continua sendo o mesmo de qualquer perfumaria: construir uma composição olfativa. Pensar em equilíbrio, contraste, estrutura, evolução, intensidade e, principalmente, no que acontece com cada matéria-prima quando ela encontra as outras. Consegue perceber a diferença entre misturar aromas e formular um perfume de verdade?

 


Só gostar de um óleo essencial não significa que ele deve entrar na fórmula.

  Essa talvez seja a distinção mais importante para quem está começando a olhar para esse universo. Imagine que você tenha três óleos essenciais que ama. Eles são maravilhosos isoladamente, mas isso não garante absolutamente nada sobre o resultado dos três juntos.


Quando duas matérias-primas aromáticas se encontram, muita coisa pode acontecer. Uma pode intensificar a percepção da outra, esconder uma faceta, criar contraste, mudar a sensação de intensidade ou revelar um efeito que não estava evidente quando você cheirou cada uma sozinha. Por isso, eu costumo dizer que gostar de uma matéria-prima e usá-la numa fórmula são duas decisões diferentes. O trabalho do perfumista está justamente em observar essas relações.


Mandy Aftel aponta três habilidades como fundamentais na formação de um perfumista natural: entender a capacidade que as essências têm de se combinar, saber editar e revisar uma composição e compreender a estrutura de um perfume. Ou seja, formular é experimentar, observar, tirar, acrescentar, comparar e refazer.

 

Quais matérias-primas entram num perfume botânico?

Uma das coisas que mais me encantam aqui é descobrir quantas expressões aromáticas diferentes cabem dentro do mundo vegetal. Entre as matérias-primas naturais para perfumaria, você vai encontrar:


- óleos essenciais, obtidos principalmente por destilação ou expressão;

- absolutos, muito usados para algumas flores e materiais mais delicados;

- extratos de CO₂, que às vezes trazem aspectos bem particulares da planta;

- resinas e bálsamos, como benjoim, olíbano, mirra e bálsamo de Tolu;

- tinturas aromáticas, feitas a partir da extração de determinados materiais;

- isolados naturais, dependendo da abordagem de cada perfumista.


A

por exemplo, mantém uma coleção com centenas de materiais naturais vindos de flores, árvores, gramíneas e resinas. É uma boa ilustração de como a perfumaria natural vai muito além dos óleos essenciais mais conhecidos da aromaterapia.


E mesmo dentro de uma categoria que parece óbvia existe uma diversidade enorme. Dizer "eu gosto de cítricos", por exemplo, ainda diz pouquíssimo para quem vai formular. Bergamota, limão, lima, mandarina e as diferentes variedades de laranja podem ocupar uma região parecida do nosso repertório olfativo, mas não cheiram igual. Umas são mais verdes, outras mais doces, secas, amargas, luminosas ou delicadas.


Aprender perfumaria é, em boa parte, aprender a perceber essas diferenças.

 

Como um perfume botânico se constrói

Algumas matérias-primas aparecem rápido e vão embora com facilidade. Outras surgem devagar ou ficam por muito tempo. Então, ao formular, não basta pensar em como o perfume cheira no primeiro minuto: é preciso pensar em como ele se desenvolve.


As ideias de notas de saída, corpo (ou coração) e fundo ajudam muito a entender essas diferenças de volatilidade. Só que um perfume não funciona como três gavetas independentes.


As matérias-primas conversam o tempo inteiro. Uma nota de fundo pode mudar a forma como você percebe uma nota volátil. Uma matéria de corpo pode servir de ponte entre duas partes da composição. E uma gota a mais de determinada essência pode desequilibrar a fórmula inteira.


Então, prefiro pensar estrutura como relação entre materiais, e não como uma pirâmide onde a gente encaixa ingredientes em prateleiras.

 

Perfumaria botânica e aromaterapia não são a mesma coisa

mulher passando perfume

As duas podem usar algumas matérias-primas em comum, principalmente óleos essenciais. Mas a pergunta que se faz diante do frasco é outra.


Na aromaterapia, o uso de um óleo essencial costuma ser pensado a partir de objetivos ligados ao bem-estar e de critérios próprios daquela prática. Leva a prática mais para a área de saúde.


Na perfumaria botânica, minhas perguntas são estas: como isso cheira? Traz brilho ou profundidade? É seco ou adocicado? Como evolui? Quanto tempo permanece? O que acontece se eu colocar ao lado de uma resina, de uma madeira, de uma flor? Está aparecendo demais? Sumiu? O que ele acrescenta à composição?


Na perfumaria, a matéria-prima é estudada principalmente como material de criação olfativa. Isso não impede, claro, que um aroma desperte lembranças, associações e emoções. Nossa experiência com cheiro é profundamente pessoal. Só que o perfume não precisa carregar uma função terapêutica para que essa experiência seja significativa.

 

Natural não quer dizer simples

Trabalhar com ingredientes naturais seria uma versão mais fácil da perfumaria? Na prática, existe uma complexidade muito particular nesse tipo de criação.


Uma das diferenças mais interessantes está justamente na própria matéria-prima. Na perfumaria que trabalha com moléculas aromáticas sintéticas ou isoladas, o perfumista pode escolher substâncias individuais e utilizá-las como partes muito específicas da construção de um cheiro. Na perfumaria botânica, muitas vezes acontece algo bem diferente: cada matéria-prima já é, por si só, uma composição complexa de dezenas (e às vezes mais de uma centena) de constituintes aromáticos. É quase como se cada matéria-prima fosse um pequeno perfume dentro do perfume.


lavanda

A lavanda, por exemplo, linalol é uma molécula muito presente no seu perfil aromático e pode ser utilizado isoladamente na construção de acordes florais e de lavanda. Porém, o linalol não é o cheiro da lavanda. Quando utilizamos o óleo essencial de Lavandula angustifolia, estamos colocando na fórmula linalol, acetato de linalila e muitos outros constituintes, cada um contribuindo em maior ou menor grau para aquilo que percebemos como o aroma daquela matéria-prima. Estudos de composição do óleo essencial de lavanda mostram justamente essa diversidade química.


Por isso, na perfumaria botânica, não estamos apenas combinando cheiros, estamos combinando sistemas aromáticos inteiros. Quando acrescento uma matéria-prima à fórmula, não acrescento uma única característica. Ela pode trazer ao mesmo tempo aspectos florais, verdes, herbais, amadeirados, doces, secos ou frescos. E cada uma dessas facetas ainda pode se comportar de maneira diferente quando encontra os outros materiais.


Essa complexidade é justamente parte do trabalho. A matéria-prima precisa ser estudada, comparada, diluída e observada tanto sozinha quanto dentro das fórmulas. Porque uma pequena mudança pode alterar não apenas um cheiro isolado, mas toda a relação entre os diversos componentes da composição.

 

Perfume natural dura menos na pele?

A duração depende da composição, da concentração, das matérias-primas escolhidas, da forma de aplicação e de características individuais de cada pele.


Na perfumaria convencional existe um arsenal de fixadores e moléculas criadas justamente para durar: almíscares sintéticos, ambretas, materiais amadeirados de alta substantividade. São ingredientes escolhidos porque projetam, preenchem e permanecem por muitas horas na pele e no tecido. Boa parte do que a gente reconhece como "perfume que dura o dia inteiro" vem daí.


Quem trabalha só com matérias-primas naturais para perfumaria não tem esse recurso à disposição. A fixação precisa ser construída com o que a planta oferece: resinas, bálsamos, madeiras, raízes e outros materiais de baixa volatilidade, dosados e combinados com cuidado dentro da fórmula.

Então sim: um perfume botânico pode ter projeção e permanência diferentes das que muita gente está acostumada nos perfumes comerciais. Isso não significa que todo perfume natural desapareça rápido. Resinas, bálsamos, madeiras e raízes têm bastante permanência


Mais interessante do que perguntar qual categoria é melhor é entender que estamos falando de linguagens olfativas e recursos de formulação diferentes.

 

Perfumaria botânica é melhor que a convencional?

Molécula sintética não torna um perfume automaticamente inferior, assim como ingrediente natural não torna uma fragrância automaticamente melhor, mais sofisticada, mais sustentável ou mais segura. São possibilidades diferentes de criação.


A perfumaria convencional tem uma paleta enorme, que combina matérias-primas naturais e moléculas produzidas por diversos processos. A perfumaria botânica escolhe trabalhar dentro de outro universo criativo, aquele oferecido pelas matérias aromáticas que vêm das plantas.


Essa paleta mais restrita não é uma deficiência. É uma escolha, e ela também molda o resultado.

 

Então o que faz um perfume botânico ser especial?

Acho que não é só o fato de usar matérias-primas naturais. Para mim, está muito no jeito de se relacionar com esses materiais. É perceber que uma raiz, uma flor, uma folha, uma casca ou uma resina não entram na fórmula só porque cheiram bem.

Cada material ocupa um lugar dentro da composição. Às vezes traz contraste, às vezes conecta duas partes, às vezes sustenta a estrutura inteira. E às vezes aparece só o suficiente para mudar tudo ao redor.


Esse entendimento exige uma coisa que não combina muito com a pressa dos nossos dias: tempo de observação. Cheirar, anotar, testar, esperar, voltar para a fórmula, tirar, acrescentar e cheirar de novo.


É nesse vaivém que um conjunto de matérias-primas deixa de ser mistura e começa, aos poucos, a virar perfume.

 

Criar junto também é uma experiência pessoal


mulher na Jornada Autoral

Tem outra coisa curiosa que acontece quando a gente amplia o repertório olfativo: descobrimos que nosso gosto é bem mais amplo do que imaginávamos.


Às vezes dizemos que gostamos de "florais", "cítricos" ou "amadeirados" simplesmente porque são as referências que já conhecemos. Só que existe um mundo de matérias-primas, combinações e sensações que talvez você nunca tenha encontrado numa prateleira de perfumaria convencional.


É por isso que acho tão interessante participar da criação de uma fragrância em vez de só procurar uma pronta que chegue perto do que você é. E não estou falando de descobrir magicamente "qual aroma representa a sua personalidade". Estou falando de explorar, perceber preferências, criar repertório, reconhecer memórias e associações, testar combinações e transformar tudo isso em decisões reais de formulação.


Essa é a ideia que orienta meu trabalho na Jornada Autoral em Perfumaria Botânica: aqui você não recebe um perfume personalizado pronto na sua mão. Você participa, aos poucos, das escolhas que vão construir a sua própria fragrância, como acontece num perfume artesanal feito com tempo e atenção. Porque entre dizer "eu gosto desse cheiro" e transformar isso em perfume existe um caminho inteiro.


 
 
 

Comentários


Logo Bridda

© Bridda - Terapia Floral de Bach, Perfumaria Botânica e formação

  • Instagram
  • LinkedIn
bottom of page